Início Entrevista Porque há histórias de Amor que duram para Sempre!

Porque há histórias de Amor que duram para Sempre!

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Fevereiro, mês dos namorados

É fácil acreditar no amor, quando à nossa frente se sentam pessoas que transportam em cada palavra o carinho que sentem pela sua cara-metade. Partimos para entrevistar dois dos mais duradouros casais da freguesia e obtivemos duas conversas totalmente díspares. Se no primeiro caso a cumplicidade e felicidade era latente, no segundo, a preocupação pela esposa hospitalizada moldava cada palavra, cada memória. Em ambos, o amor que nasceu à muitas décadas, cresceu, floresceu e era nítido na emoção de cada frase.

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Casados durante 68 anos!
Mário Martinho e Conceição Alves

Fale-nos um pouco de si e da sua esposa…

Tenho 91 anos feitos, sou de 1924. Já vi muita coisa mudar nesta terra, nesta terra e não só! A minha esposa está com 88 anos.

Trabalhou e viveu sempre cá?

Foi sempre cá. Comecei a trabalhar numa olaria de fazer tijolo que era dos meus pais, mas corri o país umas poucas vezes quando era motorista na empresa Ricardo Gallo. Estive lá 27 anos.

E a sua esposa?

Eu e ela somos os dois daqui da Coucinheira. Estamos casados à 68 anos! Casámos a 15 de Outubro de 1947.

Quando é que decidiu que a ia pedir em casamento, foi de repente?

Nós namoramos 4 anos, não foram 4 dias! Depois resolvemos em casar, ainda ela não tinha 20 anos.

E como foi esse dia?

Casámos na igreja de Amor, mas era tudo diferente de agora! Os convidados dela eram dela, e os meus eram meus. Não havia almoço, nós na altura chamávamos-lhe de jantar. Começava às 2 ou 3 horas da tarde, e era até às tantas, só à noite é que se juntava tudo. Os convidados levavam o garrafão de vinho e uma saca com pão para ajudar e os pais noivos davam a carne.

E foram viver para onde?

Estivemos 9 meses a viver numa casa de renda, enquanto comecei a construir a minha casita. Passado um ano, um ano e pouco, já estávamos na nossa casa. Mais tarde, com 4 filhos, eles começaram a crescer, essa casa só tinha 2 quartos, já era a casa “piquena”. Pensei em vender aquela casa e fiz esta maior. Depois os filhos começaram a sair e olhe! (risos) Agora é grande demais.

Falou-nos que foi motorista, e a sua esposa o que fazia?

Pois eu corri as terras de Portugal milhentas vezes de norte a sul. A minha esposa era filha de lavradores, e sempre amanhou as terras. Desde que comecei a andar na estrada, não tinha horas nem para sair, nem para voltar para casa. Dependia do sitio para onde íamos. A minha esposa ficava em casa a cuidar de tudo, das terras, dos filhos. Fazia-se as sementeiras era o milho, arranjava-se milho para todo o ano. Cortava-se um porco ou dois, e iam para a salgadeira. Comia-se o toucinho que era pouco, e era assim. Não havia nada de nada, não havia dinheiro. Aos 46 tive de me reformar. Ainda fui fazendo biscates, dando serventia de pedreiro, ajudando a construir umas casas.

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Estão casados há tanto tempo! Tiveram filhos?

Temos 4 filhos! E mais 8 netos, 6 bisnetos e 2 trisnetos!

Tivemos o prazer de conhecer uma das suas filhas há bocado. Os restantes moram perto?

Tenho a felicidade de os filhos morarem perto, eles cresceram, casaram mas o mais longe é nas Trutas e na Marinha Grande.

Com tantos anos a viver juntos, no entanto, não corre sempre tudo bem. Qual foi o maior problema que tiveram de enfrentar?

O problema maior da minha vida foi a doença que a minha esposa teve. Com 30 e poucos anos, começou a ficar doente, esteve internada algumas vezes em Coimbra. Passou-se sempre um mau bocado, sempre preocupado. Depois a falta de dinheiro, tínhamos de nos governar com aquilo que tínhamos, que às vezes era muito pouco.

Qual acha que é o segredo para um casamento feliz?

O segredo é ser muito responsável. É perdoarem-se um ao outro, embora aja sempre contrariedades, como é natural mas, principalmente perdoarem-se um ao outro para se compreenderem melhor.

É muito importante perdoar as pequenas coisas…

É muito muito importante. Hoje já não se perdoa nada, ninguém é responsável pelos seus actos ou palavras. Por qualquer coisita zangam-se, apartam-se, e depois os filhos é que sofrem. A minha esposa sempre foi a minha companheira, é muito importante saber que a tinha à espera quando chegava a casa.

Nota de redacção: A entrevista ao Sr. Mário Martinho foi realizada meros dias antes do falecimento da sua esposa. A equipa do Jornal AmorMais gostaria de aproveitar esta ocasião para publicamente endereçar ao esposo, familiares e amigos, as nossas mais sinceras condolências.

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Casados há 59 anos!
Maria da Purificação Pedra e Luís Alves

Sr Luis, D. Maria, vamos começar por uma pergunta que não se faz às senhoras. Quando nasceram? Que idade têm?

Luis Alves – Eu foi a 7 de Agosto de 1930, tenho 85 anos, e ela é 18 meses mais nova que eu, de 1932.

Estão aqui os dois finos ainda!

Luis Alves – Graças a Deus, só falta força nas pernas, que às vezes elas não querem. Mas vamos andando, ela vai aguentando, eu vou aguentando ela, vamos andando os dois..

São os dois daqui de Amor? Sempre se conheceram?

Luis Alves – Eu vivia aqui, aqui era casa dos meus pais, e ela vivia perto do salão (paroquial). Eu sempre me dei bem com o pai dela. Os meus pais davam-se bem com os dela, éramos como se fossemos família, mesmo não sendo.

Então e o namoro como começou?

Luis Alves – Eu tinha uns 18 anos, ela era mais nova. Estava eu mais a rapaziada no arraial e ela foi aos tremoços à loja. Lá comprou dois tostões de tremoços e eu perguntei-lhe se podia vir mais ela. Ela aceitou, e eu fui com ela até casa e foi assim que começou o namoro. (risos) Mas o senhor não imagina como era! Elas enfeitavam-se todas quando iam às festas, especialmente as de fora. Era o avental bordado, os laços muito bem feitos nas costas, um lenço na cabeça a cobrir o cabelo.. (risos)

Começavam a conversa assim…

Luis Alves – Geralmente eu comprava 2 tostões de tremoços ou pevides, metia-os no bolso do casaco e estava sempre a oferecer-lhe! Mas ela nunca aceitava, nunca vinha cá mexer, buscar os tremoços! (risos) E ela comprava lá os seus tremoços, punha-nos no bolso do avental dela e também não mos oferecia!

Então mas como era o namoro?

Maria da Purificação – Era tudo muito diferente do que é agora! O nosso namoro era irmos pró trabalho, do trabalho até casa, sempre na agricultura. Namorava-se à quarta feira e ao domingo, mas aos pouquichitos, que os nossos pais começam logo de caminho a rezar o terço e toca a andar.

Luis Alves – O pai dela estava sempre a espreitar, a ouvir a conversa, para ver se chegávamos a “coiso”. (risos) Primeiro começamos cá fora na rua, depois começámos a ir para uma alpendurada. Para dentro de casa é que não havia nada para ninguém. (risos)

Maria da Purificação – Namorámos uns 7 anos, ele ainda me deixou uns 6 meses, sem razão nenhuma para ir…

Luis Alves – Arranjei outra namorada…

Maria da Purificação – Sem me dizer nada! A gente a namorar há uns quatro anos! Num domingo vai à minha porta perguntar se ia à festa dos Barreiros. Disse-lhe que como a minha mãe estava doente, não sabia se me deixavam ir. Mas ele já tinha fisgado ir aqui com uma vizinha. Mas o meu pai acabou por me deixar ir. Chego lá, e ele andava por ali mais ela, mais aquela “patroa”!

Luis Alves – Mas ela também teve mais rapazes! Mas o pai dela não gostava deles, ia lá hoje um, para a semana ia outro…

Maria da Purificação – Tive outros mas era só oito dias! Vinham lá uma vez, iam comigo até à minha porta, ainda me perguntavam se podiam voltar. Às vezes ainda marcava com eles, para virem ter comigo até perto de uma oliveira, mas eu não lhe aparecia. (risos)

Mas não acabou assim…

Luis Alves – O namoro que tive com a outra rapariga chateou-se também, voltei a ir ter com ela, mas ela não me queria agarrar, não me queria aceitar, mas tive de trabalhar até ela me aceitar de novo. E depois foi até casar.

Teve de a reconquistar de novo então…

Luis Alves – Nesse tempo andava na tropa em Leiria, na Artilharia 4, e quando a vinha ver, vinha a pé à 4ª feira e voltava na madrugada seguinte. Às vezes vinha para vir à festa com ela, chegava cá e ela dizia-me que o pai dela não me deixava, e tinha vindo para nada.

Maria da Purificação – Quando ele quis voltar para mim, foi ter comigo à Quinta do Seixal, lá em Leiria, que eu andava lá a trabalhar, ele foi lá umas poucas de vezes. Eu dizia sempre que não, que se quisesse tinha muito rapaz, que fosse ter com a rapariga dele! Contou-me que se tinham deixado, e lá continuou a ir. Depois houve aqui uma festa em Agosto, aí é que aceitei. Eu gostava dele!

Luis Alves – Depois de namoramos aqueles anos todos, lá combinamos o casamento

Maria da Purificação – Já fazemos 60 anos de casados no dia 8 de Fevereiro!

Como foi o vosso dia de casamento?

Luis Alves – Tive de a ir buscar a casa para a ir para a Igreja. Cada família fazia a sua festa, os meus pais fizeram a festa aqui, os pais dela fizeram lá na casa dela. Há noite tive de a ir buscar lá a casa dela, mais os meus convidados para a trazer para cá. Quando chegámos aqui a casa, entreguei-lhe a chave da porta, para abrires a porta à hora que eu vier. Não podia me fechar a porta também!

Maria da Purificação – (risos) Graças a Deus, até hoje abri-lhe sempre a porta.

Tanto tempo casados, têm sempre coisas boas e más…

Maria da Purificação – A minha sogra faleceu 2 anos depois, e o meu sogro uns 7 anos depois. Tivemos 6 filhos, sobreviveram 4, 2 rapazes e 2 raparigas. Uma infelizmente faleceu à nascença e outra com 19 anos. Temos 4 netos e 5 bisnetos.

Luis Alves – Deixamos gente para cuidar da “coisa”!

Viveram sempre cá?

Luis Alves – Tive 11 anos a trabalhar na Alemanha, em Friburgo a trabalhar numa fábrica. Ela ainda lá me foi visitar duas vezes, mas era eu que cá vinha sempre, 2 vezes por ano, uma pelo natal e outra por Agosto. Os meus cunhados já estavam em França e desafiavam-me a ir para lá, mas na altura tinha de ir “a salto”. Ela não me deixava ir assim, nem eu queria! Para a Alemanha, fui legalmente, com carta de chamada do patrão.

Mas porquê é escolheu ir?

Luis Alves – Queria comprar uns terrenos, mas ainda era caro. Foi preciso trabalhar muito para juntar o dinheiro. Tinha de pagar as minhas coisas, viver lá, e enviava o que poupava. A taxa de câmbio ajudava, o marco era muito mais valioso que o escudo. Mas sabe… quando para lá fui, era quando devia ter vindo, já tinha 40 anos.

Foi sozinho ou foram mais pessoas que conhecia?

Luis Alves – Fui sozinho e só lá é que encontrei alguns portugueses. Mas eles assim que começavam a vir a Portugal de férias, já não voltavam mais! Lá vivia num quarto, numa casa partilhada com uns colegas jugoslavos.

Maria da Purificação – Ganhava menos ainda do que se tivesse cá..

Luis Alves – Não, ganhava mais e enviava muito para cá..

Maria da Purificação – Ele escusava de ir.. tínhamos uma vida tão bonita cá… Foi muito difícil. Tínhamos os nossos quintais, e ele deixou-me com o amanho deles, as terras para lavrar, duas vacas, porcos, 5 filhos, foi-se embora, eu ia morrendo… custou-me muito!

Luis Alves – Eu pus na cabeça que queria ir para o estrangeiro para comprar estes terrenos aqui e lá fui!

Maria da Purificação – Amanhávamos as nossas terras, as terras de renda, era noite e dia a trabalhar. Nu nem por nada queria que ele fosse, mas com o dinheiro ainda comprámos terras, onde eles fizeram as casas, dé-mos-lhes o enxoval.

Qual acham que é o segredo para o casamento feliz ao fim de tanto tempo juntos?

Luis Alves – 60 anos é muito tempo a viver junto… eu nunca pensei chegar a esta idade.

Maria da Purificação – Graças a Deus, sempre nos demos bem um com o outro. Digo-lhe a si e a quem quiser ouvir, nunca chamámos um nome um ao outro, nunca! Nem ele a mim, nem eu a ele, nem aos filhos!

Luis Alves – Houve sempre respeito!

Maria da Purificação – Sim. Eu digo-lhe que fui pior para ele. Especialmente quando esteve emigrado. Estava sozinha, às vezes os filhos fugiam daqui, tinha de ralhar com eles. Ele fazia-me falta…

Os filhos infelizmente agora também estão emigrados…

Luis Alves – Sim, mas vêm cá no verão. Vêm cá todos, as filhas voltam do Luxemburgo, os netos. Quando eu faço anos, está a casa cheia!

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