Início Entrevista Tatiana Carreira. Dia Mundial do Rock.

Tatiana Carreira. Dia Mundial do Rock.

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Dia Mundial do Rock. Nos últimos anos, alguns projectos musicais têm despontado na nossa terra, sendo o seu expoente máximo a banda de covers Nintendo.Nada. Fomos conversar com a mais famosa guitarrista da freguesia, em busca de percebermos melhor o que move a sua paixão pelo rock e como o seu trabalho molda o futuro: Tatiana Carreira, 22 anos, Casal dos Claros, guitarrista dos Nintendo.Nada.

Boa noite Tatiana, como e quando começaste a tocar?

Quando somos putos, brincamos todos com a música, nem que seja com os tachos. Eu sempre ouvi uma história que o meu pai quando era mais novo tinha comprado uma tábua, cortou-a há medida de uma guitarra e com aros de mota criou cordas. Eu não sei se vem daí, mas sempre ouvi esta história da guitarra.

Sempre gostei mais de ouvir concertos ao vivo do que o CD propriamente dito. Ao ver um guitarrista a fazer o que fazia em palco, tudo o que se passava num concerto ao vivo, houve um momento em que olhei para aquilo e pensei que o queria fazer, queria tocar ao vivo. Tinha uns 13/14 anos quando isso aconteceu, mas só uns anos mais tarde comecei a aprender a tocar.

E quando aprendeste a tocar?

Estava no secundário, e havia o clube da música no Colégio [Dinis de Melo], e achei que era naquela altura que podia aprender a tocar guitarra. Disse à minha mãe e ela até me perguntou porquê guitarra quando me tinham dado um teclado em criança. Mas a guitarra era o que queria mesmo!

Juntei-me ao clube, e o que é que a professora de música me pôs a tocar? Triângulo! Comecei a perceber que a professora tinha de dar atenção a todos, e que o objectivo era “tocarmos” um pouco, não dava para estar a ensinar cada um. Aquilo não dava para mim!

Fui falar com a professora e contar-lhe que o que queria mesmo era aprender a tocar guitarra. Disse-me que arranjava 10 minutos livres no intervalo de almoço e que me iria ensinando devagarinho. Fui e ensinou-me 4 acordes. Escrevi os acordes, vim para casa, e disse ao meu pai que se ia ter aulas de graça, precisava de uma guitarra. Ele fez o esforço, e comprou-me uma clássica.

Na semana seguinte, voltei lá, e a professora não podia, nem na outra a seguir. Isto repetiu-se umas semanas. Desisti.

Fui ao Youtube, e comecei a aprender sozinha. Existe imensa coisa, várias maneiras de aprender, é preciso é tempo e paciência para procurar e aprender.

Essa aprendizagem sozinha foi complicada?

Eu tenho reumatismo, e afecta-me os dedos. Para certos acordes, era necessário realizar movimentos com os dedos que eu não conseguia. Passei uma fase critica, onde achava que por causa da doença, não iria ser capaz de tocar. Mas quando consegui fazer “aquele acorde”, tudo melhorou. Aquele acorde deixou de ser suficiente, precisava de mais. Fui atrás da guitarra eléctrica, que era o que queria desde o início.

Motivava-te ultrapassares essas dificuldades? Não tiveste mais “aulas”?

Muito. E depois quando começamos a tocar, a melhorar, e está a soar semelhante ao que ouvimos na rádio, isso dá pica.

Nunca tive aulas de nada, agora acho necessário. Existem coisas que se aprende sozinha, mas outras, só aprendendo com quem sabe. Um bom músico vê-se nos pormenores, e eu quero estar ai, quero evoluir a esse patamar, preciso de aprender esses pormenores, ganhar experiência. De ano para ano, tenho tido mais concertos, tenho evoluído, mas quero mais.

Os MusicAge começaram em 2010. Como foste parar a uma banda?

Eu e outra rapariga tocávamos na banda do Colégio, e fomos convidadas pelo Gonçalo [Carvalho] e pelo Pedro [Gaspar] para experimentar e lá ficámos. No início até nos chamávamos StoneAge, mas mudámos para MusicAge e depois Nintendo.Nada. Os anos deste projecto, que é de minha prioridade agora, fez-me amadurecer.

Quando comecei, tocava a olhar para o chão, mas depois, reparas naquelas pessoas todas a olhar para ti, a vibrarem com o que estás a tocar, e pensas “isto é muita fixe”! Fica cá dentro o bichinho e pensas que se tocaste agora 5 músicas, da próxima já queres tocar 6 ou 7.

Para além dos Nintendo.Nada, agora também tens as Tat&Ana. Como surgiu esse projecto?

Ligou-me um senhor da Marinha Grande a perguntar se tinha um projecto acústico, depois de ter visto os Nintendo. Disse-lhe que não, mas que arranjava. Já conhecia a Ana, resolvemos experimentar, treinámos umas 25/30 músicas, e fomos lá tocar. Correu tudo bem, a casa estava cheia. Resolvemos continuar.

Com ela toco guitarra acústica, mas não a troco pela guitarra eléctrica, mesmo que não tenha o preenchimento que a primeira.

São projectos bastante distintos até em termos de locais onde tocam…

Sim. No verão, toco mais com a banda, no inverno mais com a Tat&Ana. Para o exterior, festas, o projecto é a banda. Para algo mais intimista, é com a Ana.

E existe sempre o pormenor do cachet, pois muitos bares têm apenas cachet para um acústico com 2 membros. Já é um problema se forem 3.

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Tocas quantos instrumentos?

Guitarra, baixo (em casa), teclas, sei fazer um ritmo na bateria, mas não conta (risos).

Nintendo.Nada, Tat&Ana, com participações em várias bandas como o Dr. Cavalheiro. Está-me a faltar mais alguém com quem tenhas tocado?

Tive umas participações com os Fura Pastos, já me convidaram para tocar com os Apartirtudo, com o David Antunes…

Isso tudo dá quantos concertos por ano?

No Tat&Ana, a Ana fez as contas e disse que demos uns 40 concertos em 2015. Até 31 de Julho sei que em 2016, com todos os projectos, vou ficar com 38 concertos.

Isso são mais concertos que semanas (até final de julho o ano tem 30 semanas)…

Na próximo fim-de-semana vou tocar 6ª, sábado e domingo. Depois existem semanas onde não tenho nenhum.

No fim-de-semana tocas, mas durante a semana sei que ensaias, treinas novas músicas, pesquisas reportório, contactares bares para tocarem… como são os teus dias?

Levanto-me às 8h15, saio às 18h30 [do emprego], às vezes venho para casa, outras vou ao fitness, depois é sempre trabalho para a música até perto da 1h00.
Isso traz menos tempo para a família e para os amigos…

Os meus pais, por causa de tanto eu como o meu irmão estarmos na banda, acabam por nos ir ver quase sempre. Mas com as amigas, às vezes custa, quando me dizem que já há muito tempo não tinha tempo para alguma delas. Isso custa, bate cá dentro. Os amigos a sério, não deixam de o ser, mas… Tenho de abdicar de muita coisa. Tenho de faltar a almoços e jantares de família, de amigos…

Sim, porque podemos ver num cartaz que vais tocar as 23h mas não é só aparecer e tocar…

É sair do trabalho às 18h30, vir a casa buscar o material, chegar ao local às 19h, montar tudo, fazer som, jantar e esperar para começar. O jantar é muitas vezes o tempo mais relaxado que temos.

Entre as amizades que estão associadas ao teu trabalho diário mais as amizades com quem lidas num mundo da música, sobra tempo e energia para mais?

Depende. Existem fins-de-semana onde não tenho força para nada, outros forço-me a conviver porque sei que posso não ter tempo nos dias seguintes. Mas também é diferente agora no verão que temos muitos concertos, porque no inverno acalma imenso, e já dá tempo para tudo.

Não deixa de ser cansativo…

Eu queixo-me de não puder estar tanto tempo com os meus amigos, mas era bom sinal continuar assim, “sem tempo”. É sinal que tudo aquilo para o que estou a trabalhar, está a funcionar, que nos continuam a querer ver e ouvir. Que o trabalho que tenho, as horas que dedico estão a ter resultados.

Qual a tua formação académica? Trabalhas em quê durante o dia?

Trabalho numa empresa na Marinha como contabilista. Sempre quis gestão, e acabei por fazer um estágio em contabilidade e gostei. Ainda não sou Técnica Oficial de Contas, mas um dia serei. Os estudos vão estar sempre à minha espera, mas enquanto puder tocar, quero continuar enquanto a música me der.

Enquanto a música te der?

Eu não sei se daqui a um ano vou ter os concertos que tenho agora, se nos vão continuar a querer ouvir. Eu não sei se daqui a um ano tenho capacidades motoras para fazer o que eu faço. Eu saio esgotada dos concertos dos Nintendo.Nada. Estou 2h30 de pé a tocar, saio cansada fisicamente, por causa dos problemas de saúde.

Nunca pensaste em arriscar e embarcares para Lisboa ou para o Porto e fazeres audições?

Não, para isso é preciso saber tocar. Eu posso saber tocar melhor que tu, mas tecnicamente preciso de melhorar muito. Em qualquer banda da moda, eles vão buscar os melhores músicos para tocarem, porque é que hão-de ir buscar a “Tatiana Carreira da aldeia”? Eu tenho de me diferenciar, tenho de ser melhor, tenho de trabalhar para. Um bom músico vê-se nos pormenores, e eu ainda não estou capaz de mostrar, mas quero aprender. É o objectivo chegar lá daqui a um ano!

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Escrito por:

Levi Redondo Bolacha

Com formação em Química e Biologia, perdeu-se de amores pela Genealogia após um trabalho da cadeira universitária de Genética. Apaixonado por vários temas, é normal encontrá-lo perdido numa livraria a deambular entre a área da História e da Ficção Cientifica. | Mais sobre o autor...

Sílvia Góis

Sílvia Góis, natural dos Barreiros e estou como sou no AmorMais. O gosto pela criação e recriação acompanha-me desde que 1 metro era o tamanho da minha altura. Disseram-me para seguir algo certeiro - para a procura do “Emprego” e o que se seguisse fosse mais fácil. As oportunidades para seguir dessa maneira surgiram, mas não fruíram. Sabia o que não queria (Se fosse ao contrario era mais fácil!). Então, o meu percurso académico passou pela multimédia e animação cultural. E a fotografia digital é um hobbie. No fundo seria bom que “O Emprego” pudesse ser: Idiota. Porque o meu forte mesmo é ter ideias (e os outros sinónimos todos dessa palavra, se quiserem). Por ter tantas, e não saber o que fazer com elas, sozinha, tento canalizá-las desde 2012 para a Associação Desportiva e Recreativa dos Barreiros e desde 2015 para a Associação Amor Mais. Colocar em prática a minha formação* e gostos próprios, tem-se baseado no que ando por aqui a fazer. *Animação Cultural? Fazer festas? Fazer de bobo? É o que vocês quiserem. Desde que respeitem os que tropeçam em vós, tudo certo. Se quiserem saber mesmo do que se trata, o email está por aí algures. | Mais sobre o autor...

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