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Cátia Mota: Fogo de viver!

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Cátia Mota mentora da Prova de Fogo (Foto: Sílvia Góis)
Prova de Fogo é o nome do projeto da Cátia Mota (26 anos, moradora na Brejieira). Lançado há 2 anos (13 de Setembro de 2014), é em tudo original: a amorense é contratada para cozinhar sushi ao domicílio!
A revolta da comida japonesa há muito que começou em Portugal, mas só recentemente começou a conquistar território Leiriense. A Cátia tornou-se uma pioneira nessa área. Combina empreendedorismo, restauração, inovação e gastronomia tradicional japonesa!

Boa noite Cátia. Primeiro gostávamos de saber qual é a tua formação universitária e o teu trabalho no dia-a-dia.

Formei-me em Castelo Branco em 2012 em “Design de interiores e equipamento” e ingressei agora num mestrado de “Design de Produto”. Ao mesmo tempo, trabalho numa empresa de design de interiores em Leiria, onde faço a parte de projecto.

Como descobriste o prazer de cozinhar?

Lá em casa a minha mãe, a minha tia, a minha avó, todas fazem pratos deliciosos. Quando se juntam todos numa casa, numa situação de família, é sempre tudo bom. Eu sempre gostei de ajudá-las. Quando fui estudar para Castelo Branco tive de me desenrascar sozinha e começar a cozinhar, mas cozinhar só para nós é chato! Então começamos a fazer pratos para os amigos que convidamos, e quando ouvimos os elogios, sentimos vontade de voltar a fazer, fazer pratos melhores e até experimentar novas coisas.

Foi assim que experimentaste o sushi?

Fazíamos uns jantares temáticos, um dia em casa de cada um. Tinha um casal amigo que fazia jantares extraordinários, desde italianos a tailandeses, e eu ia ajudar. Uma vez alguém se lembrou de fazer sushi, que era algo que só comíamos em restaurantes.

Eu por acaso tenho a sorte, de trabalhar exactamente naquilo de que eu gosto no meu dia-a-dia, mas a cozinha completa isso. Tenho um gosto pessoal pela cozinha, é das poucas coisas que me faz descomprimir. Mas não gosto de cozinhar coisas “chatas”, gosto do desafio, e o sushi é dos pratos mais desafiantes.

Explica-nos o que é realmente o sushi?

O sushi é um prato originalmente japonês, cuja origem está na maneira como os japoneses conservavam o peixe em alto mar. Antes de existirem arcas congeladoras, eles apanhavam o peixe, e conservavam-no num arroz salgado e envinagrado. Ao mesmo tempo, este servia de alimento. Com o passar do tempo, foi-se tornando um prato típico. Os japoneses comem sushi como se fosse um lanche, é algo diário, entre refeições, faz parte do regime alimentar deles.

O sushi conjuga arroz temperado, com vinagre e açúcar, com um peixe cru ou ligeiramente marinado, dependendo do peixe. A isso conjugam-se outros alimentos japoneses como algas, legumes, sementes. O peixe não pode ser cozinhado. Já as tempuras (legumes panados) ou a sopa miso não são sushi mas também são pratos japoneses.

(Foto: Sílvia Góis)

Existem diferenças do sushi que se come em Portugal do “original”?

O sushi no Japão é diferente do que estamos habituados. O arroz é mais desenxabido, o peixe é mais marinado, menos tratado.

Eu sou fã de ir comer sushi aos restaurantes, já fui inclusive a certas cidades comer sushi. Ainda quero voltar ao Porto só para isso, a um dos melhores a nível nacional, mas é preciso outro tipo de “disponibilidade financeira” (risos).

Cá faz-se muito sushi de robalo, de dourada, de frutas (que eu pessoalmente não gosto). Salmão e atum são mais universais mas muito utilizados cá.

Como resolveste apostar neste negócio?

Começou na brincadeira, a fazer em casa de amigos e estes a dizerem “isto está tão bom” e “podias fazer para fora”. Depois convidaram-me para ir fazer a casa de outros amigos, outras pessoas, até termos pessoas a vir de fora que gostam do que cozinhava.

Quando fui a ver, já tinha passado de brincadeira a algo a sério, tornou-se num part-time e temos de nos preocupar com coisas mais sérias como registar a situação nas finanças, entre outras.

A primeira vez que fui a casa de alguém que não conhecia foi um bocado estranho, mas só o fiz quando já estava mais segura de mim, ao passar pela parte mais formativa. Fiz vários workshops na Figueira da Foz (com um dos melhores chefes aqui da zona), algumas formações online, muita pesquisa em leitura e vídeos, quase sempre a instruir-me sozinha. A formação começa a dar-nos segurança, ao aprendermos e contactarmos directamente com quem faz isto de forma profissional. E depois, há sempre aquela altura em que temos de enfrentar o mundo!

Como funciona o teu serviço?

O ideal é contactarem-me com alguma antecedência pelo Facebook para se acertar datas e pormenores. Informam-me se há crianças, o que gostam mais, e podemos personalizar a refeição. Tenho um menu específico, com um preço por pessoa e com determinado número de peças por pessoa (15 a 20 peças). É óbvio que como eu as faço na hora em casa do cliente, por vezes acabo por fazer outras peças que não estão no menu e até mais do que estava planeado no início.

O número mínimo de pessoas são 8, o máximo ainda não tenho, embora já tenha preparado uma refeição para 17 pessoas.

Porque existe um mínimo de pessoas?

O mínimo de pessoas por refeição está relacionado com o peixe, porque tenho de comprar um peixe com um tamanho mínimo para conseguir tirar o filete. O valor não inclui a bebida, mas posso levar se desejarem, e tenho duas opções: saquê (uma bebida com um sabor parecido à nossa água-ardente mas mais suave) e o vinho de ameixa (uma bebida licorosa e doce), que tem sido o favorito dos meus clientes e combina muito bem com o paladar do sushi.

Onde compras os ingredientes para os teus pratos?

Compro a uma senhora no mercado de Leiria, que sabe exactamente o que eu quero e que tipo de qualidade tem de ter o peixe, que no meu trabalho tem de estar o mais fresco possível. Um atum bom, por exemplo, não se arranja facilmente. Existe muito atum, mas o atum que eu pretendo fresco, com o tamanho indicado, e a qualidade para fazer sushi já é difícil de encontrar. Encomendo sempre à peixeira uns dias antes, vou lá na madrugada do dia do jantar, trago-o para casa, amanho e trato o peixe.

Trabalhas com que ingredientes?

Só trabalho com peixe fresco (atum, salmão, robalo, dourada e a cavala). Depois trabalho com camarão (que é sempre cozinhado), o abacate, incorporei recentemente os espargos (que como têm um sabor bastante intenso as pessoas ou gostam muito ou não gostam nada), as sementes de sésamo, o cebolinho, e alguns complementos como o molho ponzu (um molho típico japonês com um sabor a limão).

Estas coisas encomendo através de uma empresa portuguesa que importa directamente do japão. Faço a encomenda pela internet e eles entregam em casa.

Ainda existe aquele mito de pensarem estar a comer “peixe cru”…

O peixe é cru mas tem tratamento, para além da preparação, tudo são passos para se garantir a segurança da refeição.

Porque escolheste “ir cozinhar a casa das pessoas”?

É um serviço muito mais personalizado mas também mais seguro. Eu garanto que as pessoas vão comer as coisas frescas. Se fossem buscar a minha casa eu não sabia quanto tempo iam demorar até chegar a casa delas, se iam ligar o ar condicionado quente no carro, se iam parar pelo caminho… Se fosse entregar, iria sempre perder tempo na deslocação e os alimentos já não iriam ter o mesmo sabor. É uma coisa muito mais intimista, o cliente vê praticamente toda a preparação, vê o cuidado e a higiene que eu tenho, pode fazer todas as perguntas que querem, ir provando.

Este teu serviço tem o nome bastante apelativo! Porquê o nome “Prova de Fogo”?

Quando comecei ainda estava a tentar perceber o que as pessoas sentiam ao comer a minha refeição, como se estivessem a fazer uma prova. Ao procurar um nome, não queria que usasse a palavra sushi, queria uma coisa mais neutra, algo que aguçasse a curiosidade. Entre amigos, no meio de muitas ideias de nomes e analogias, surgiu o vermelho-fogo por causa do vermelho do meu cabelo, passou para “Prova de Fogo”. Começou a ecoar e a fazer sentido.

(Foto: Sílvia Góis)

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Escrito por:

Levi Redondo Bolacha

Com formação em Química e Biologia, perdeu-se de amores pela Genealogia após um trabalho da cadeira universitária de Genética. Apaixonado por vários temas, é normal encontrá-lo perdido numa livraria a deambular entre a área da História e da Ficção Cientifica. | Mais sobre o autor...

Sílvia Góis

Sílvia Góis, natural dos Barreiros e estou como sou no AmorMais. O gosto pela criação e recriação acompanha-me desde que 1 metro era o tamanho da minha altura. Disseram-me para seguir algo certeiro - para a procura do “Emprego” e o que se seguisse fosse mais fácil. As oportunidades para seguir dessa maneira surgiram, mas não fruíram. Sabia o que não queria (Se fosse ao contrario era mais fácil!). Então, o meu percurso académico passou pela multimédia e animação cultural. E a fotografia digital é um hobbie. No fundo seria bom que “O Emprego” pudesse ser: Idiota. Porque o meu forte mesmo é ter ideias (e os outros sinónimos todos dessa palavra, se quiserem). Por ter tantas, e não saber o que fazer com elas, sozinha, tento canalizá-las desde 2012 para a Associação Desportiva e Recreativa dos Barreiros e desde 2015 para a Associação Amor Mais. Colocar em prática a minha formação* e gostos próprios, tem-se baseado no que ando por aqui a fazer. *Animação Cultural? Fazer festas? Fazer de bobo? É o que vocês quiserem. Desde que respeitem os que tropeçam em vós, tudo certo. Se quiserem saber mesmo do que se trata, o email está por aí algures. | Mais sobre o autor...

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