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Entrevista ao Padre Sérgio Henriques

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O Padre Sérgio Feliciano de Sousa Henriques assumiu a função de prior das paróquias de Amor e Regueira de Pontes no passado dia 6 de outubro. O mais novo padre a assumir este cargo desde 1966, abriu as portas da casa paroquial para conversar um pouco com o nosso jornal sobre o homem que existe para além da profissão que ocupa, nunca deixando de lado o chamamento que sentiu.


Nasceu a 23 de julho de 1968 onde?
No lugar da Lagoa do Grou, freguesia de Freixianda, Distrito de Santarém.
Vem de uma família grande?
Não, somos três irmãos. Uma família rural, de origens camponesas. O meu pai quando nasci estava a cumprir o serviço militar obrigatório, onde foi destacado para Angola. Ao voltar, foi “a salto” para França como emigrante, onde trabalhou durante 25 anos. Sou também filho da emigração. O meu pai sempre trabalhou em França, e eu, os meus irmãos e a minha mãe sempre ficámos em Portugal.
Com que idade ingressa no seminário?
Com 13 anos. O meu ingresso foi algo um pouco surreal, eu tinha medo de dizer à minha mãe o que tinha feito. Fiz a primária e depois mais dois anos do ciclo em telescola. Quando acabo 6.º ano, vou ver as notas, vejo que tinha transitado e ao voltar para casa, em vez de vir contar à minha mãe que tinha passado de ano, vou para casa do prior e digo que queria ir para o seminário. Na minha casa ninguém sabia de nada. O prior ficou contente, fiz com ele o requerimento para entrar. Andei ali uns oito dias sem dizer nada em casa, a saber que ia chegar uma carta do seminário a convocar-me para ir fazer o estágio. Estamos no campo, no meio do milho, quando disse à minha mãe o que tinha feito. Sei que não tinha a completa noção do que tinha feito, mas algo me dizia que era por aqui. Soube anos mais tarde, que os meus pais reprogramaram a sua vida por causa desta decisão. Eles tinham planeado irmos todos para França no final desse ano, e a minha decisão alterou tudo, mas nunca me fizeram sentir o peso da decisão.
Ingressa no seminário em Leiria, longe de tudo o que conhecia…
Foi um corte radical, abrupto, entre mim e a família, sair com 13 anos. Só ia de 15 em 15 dias a casa. Mas fortalecem-se as relações com os colegas.
Como é o início da sua vida pastoral?
Sou ordenado diácono em 1994, e início as minhas funções na
Marinha Grande. Apresento-me no início de setembro para dar aulas de “Educação Moral e Católica” na escola “Pinhal do Rei”, um dos meus serviços desse ano. De julho a 1994 até maio 2005 sirvo o tempo de diaconato, e é a 7 de maio de 1995 que sou ordenado padre, permanecendo na Marinha Grande até setembro de 2001. Sempre como vigário paroquial. Assumo a primeira paróquia nessa data em Caixarias, concelho de Ourém. Volto para perto de casa dos pais, às origens de uma paróquia rural. Foi o primeiro sentido da responsabilidade, da paroquialidade, da carga o que é ser pastor numa comunidade.
Em 2005, acumulei também a paróquia do Olival, devido à escassez de padres.
Em setembro de 2009, passo para a paróquia da Vieira de Leiria, e em 2014 dou entrada no Santuário de Fátima, como capelão e Diretor de Departamento de Liturgia.
Cargo que ainda hoje ocupa. E afinal, o que é o Departamento de Liturgia?
Na igreja há toda uma dimensão celebrativa e ritual. A liturgia é toda a ação de celebração que acontece dentro da igreja, seja a eucaristia ou outro sacramento, sejam celebrações paralitúrgicas – uma oração do terço, por exemplo – onde existem intervenientes. O departamento tem sobre a sua responsabilidade o olhar para as celebrações, a forma como elas decorrem e garantir que acontecem segundo as normas e dignidade da igreja, que as pessoas que têm uma intervenção ativa estejam formadas, sabem o que vão fazer. Há aspetos fulcrais e essenciais para a validade de um sacramento, há coisas que são intocáveis, há outras onde podemos exercer a nossa dimensão humana e criativa.
Tenho de zelar pelos primeiros e ajudar com os segundos.
Durante muitos anos foi também diretor da AMIGrante.
Esse é o meu bichinho. No ano 2000 fui com a diocese às jornadas da juventude a Roma, e no regresso sou nomeado diretor do secretariado diocesano das migrações e turismo. Pouco tempo depois, a vaga de imigração de Leste tocou-nos. Sabíamos como estavam a ser recebidos muitos imigrantes, as condições em que estavam a ser inseridos, trabalhos e salários muito precários. Surge a associação para dar voz aos imigrantes que vinham até nós.
Por muita carolice que existisse em mim ou nos que nos ajudavam, havia necessidade de uma estrutura legal, física, que os representasse para quando chegávamos perto de uma entidade como ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras ou a Segurança Social sermos considerados. Haviam patrões exploravam os seus trabalhadores que se riam de nós, que nos expulsavam, e a partir do momento que somos uma associação, em que aparecemos com um advogado, as coisas mudam. É algo do qual me orgulho, e sinto grande alegria de tudo o que aqueles voluntariados fizeram, tendo chegado a estabelecer protocolos a nível nacional.
É o prior que pede ao Bispo para voltar a orientar uma paróquia?
Após cinco anos no Santuário de Fátima, uma experiência belíssima, de contacto com os peregrinos, de sentir um testemunho de fé, de confiança e entrega a Nossa Senhora, mas… quem viveu quase 20 anos em experiência paroquial, em contacto com uma assembleia, com um povo, com um território, sente falta disso. Numa celebração no Santuário temos 10 mil pessoas à nossa frente, mas sentimos falta dos laços humanos, de nos perguntarmos “onde está o Ti Manel? Onde está o Francisco? O pequenito?”. A dimensão relacional é totalmente diferente, onde em Fátima existe uma assembleia anónima, mas onde eu como padre e pastor não conheço a vida e o sentir daquela pessoa, não tenho a relação “tu-a-tu”.
Em Amor, temos um movimento catequético forte, mas se se entrar numa missa a maioria das pessoas são de faixas etárias mais velhas. Sente um afastamento dos jovens da igreja?
Hoje em dia podemos dizer que os jovens não deixam de acreditar ou ter fé, porém a sua vida passa por outras dimensões que não uma dimensão celebrativa. É esse também o meu sentir, nota-se não só aqui em Amor,
mas a nível global. A juventude tem um anseio de experimentar e sentir aquilo que são as novas filosofias, propostas do mundo, porém, sendo menos a prática regular celebrativa cristã dos jovens, há uma prática mais consciente. No antigamente, havia uma dimensão de tradição. O meu pai foi batizado, a minha mãe foi batizada, eu também sou batizado. Seguiam atrás do que tinha vindo antes, muitas vezes inconscientemente, sem sentir a interrogação dos porquês. A malta hoje faz a sua interrogação, “porque eu hei de ir”, e quando encontram uma resposta, levam-no a uma dimensão pratica. Mas até lá chegar, procuram em muitas outras coisas, e por vezes a igreja não chega a tempo com essa resposta. Mas estou convicto que quem vem, está com uma convicção mais profunda do que vinham anteriormente.
Um padre é sempre um padre, mas não existe apenas para a vida de cada paróquia. O padre tem hobbies?
[Risos] Gosto de ler, gosto de andar de bicicleta, gosto de tirar fotografias (agora não tanto). Gosto de ir ao cinema, de dar um passeio cultural nas férias, gosto de vez em quando com colegas ou grupo de jovens beber uma cerveja. Não deixo de ser padre quando estou num café ou num bar, e com quem estou sabe-o, mas também gosto de estar nos ambientes onde também está a minha comunidade. Jesus Cristo há dois mil anos não estava exclusivamente no templo ou na sinagoga, também circulava pelas ruas, pelas aldeias, almoçava junto dos seus, e também é esse o meu sentir.

Texto originalmente publicado na edição de novembro de 2019.

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