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O Peditório pelas Almas do Purgatório

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Búzio, corneta e saco, elementos fundamentais (Foto: Sílvia Góis)

Tradição secular que na freguesia de Amor apenas se preserva nos Barreiros, tivemos oportunidade de conversar com duas “versões” do famoso peditório pelas almas do purgatório: o grupo que realizou este ano, recebendo-nos no seu “quartel”; e uma família de 4 membros, representando 3 gerações consecutivas de membros das “almas”.

Boa noite, está aqui uma “casa cheia”. Afinal, quem faz parte do grupo que realiza o peditório?

Organização do Peditório: Os rapazes são recrutados na catequese dos Barreiros e que estejam a frequentar o 10º ano lectivo (15/16 anos). É feito o convite a todos para virem à 1ª reunião, onde lhe explicamos o que são as “Almas”. Não existe um limite de idade para a colaboração regular, estando aberto a todos os solteiros, este ano somos cerca de 30 jovens.

E como se organizam?

De um ano para o outro são escolhidos um chefe e um sub-chefe, com base na sua assiduidade ao longo dos anos, na sua maturidade e responsabilidade. Este ficam responsáveis por toda a organização do ano seguinte: marcar as reuniões (com os antigos chefes, e com os membros actuais), escolher um “Quartel” (lugar onde se encontram antes e depois de cada peditório), decidir quando se começa a pedir, garantir a presença de elementos mais experientes para ajudar. Depois é preciso explicar as regras aos novatos, fazê-los compreender a solenidade do acto, a educação a mostrar a quem nos recebe nas suas casas, a responsabilidade associada ao dinheiro que é oferecido, e ensinar-lhes as rezas.

Como fazem isso?

Damos uma folha com a reza, para decorarem. Temos a reza pelas almas do purgatório, o Pai-Nosso e a Glória. Antigamente não havia folha! Acabávamos por decorar ao acompanhar o grupo durante os primeiros dias.

Foi só isso que mudou nos últimos anos?

Antigamente existia a escolha entre o rezar ou o cantar, mas ao longo dos anos, o cantar foi desaparecendo. Nessa altura, o grupo dividia-se em dois, indo a cantar, à desgarrada, ao longo do caminho. Agora, só em casas muito especificas, em que nos convençam, voltamos a cantar a musica. Mas esta é demorada, e é preciso perceber que antes os lugares tinham muito menos casas.

Explicam-nos como se decorre o peditório…

Dividimos o território por zonas, e guiamos-nos pelo local onde devemos chegar no final da cada semana. O peditório decorre durante 4 ou 5 semanas. Todos os dias úteis reunimo-nos no Quartel, e tendo um mínimo de 5 pessoas, podemos sair. Ao chegar à rua desejada, tocamos o búzio e em seguida a corneta, intercalados, anunciando a nossa chegada.

Todos sabem que chegaram!

Antigamente, as pessoas já estavam à porta antes de se tocar à campainha! Ao chegar a uma casa, os instrumentos ficam reservados atrás das costas, bate-se à porta e informamos que estamos a pedir pelas almas do purgatório; existem pessoas que aceitam ou outras não, mas é quase indiferente se são naturais daqui ou não, pois temos pessoas dos Barreiros que nunca abrem a porta e pessoas que vieram de fora que abrem sempre.

(Foto: Sílvia Góis)
(Foto: Sílvia Góis)

Uma pessoa abre a porta e o que vê?

Colocamo-nos em meia-lua em frente à porta, estando numa ponta a pessoa que vai rezar e na oposta a que tem a saca (onde se recebe os donativos e que nunca é abandonada durante a noite).

Que cuidados têm ao rezar?

Cabeça destapada, mãos em frente ao corpo ou nas costas, tentamos rezar pausadamente, deixando sempre que a pessoa acabe, caso esteja a rezar ao mesmo tempo que nós. Quando visitamos a casa de familiares de um dos membros do grupo, esse mesmo membro tem a obrigação de ser ele a rezar, e se estivermos numa casa onde um familiar faleceu à pouco tempo, tentamos garantir ainda mais o respeito que aquele acto tem. Acabando, temos o cuidado de deixar os portões conforme os encontrámos e ao final de cada dia, o dinheiro doado é contado e inscreve-se o valor num livro de registos.

Pelo que sei, nem todas as visitas são iguais…

Algumas pessoas sentem-se muito sensibilizadas com a reza, com a lembrança dos seus entes-queridos, choram à porta… Nos últimos anos, têm aumentado o número de pessoas que nos convidam a entrar e comer alguma coisa, havendo mesmo algumas que nos convidam a ir jantar após o peditório nocturno.

E no final o dinheiro vai exactamente para onde?

Durante uns anos, parte do dinheiro que era colectado era enviado para Fátima mas agora conseguimos que todo ele seja aplicado em missas, distribuídas ao longo do ano, pelas almas do purgatório aqui nos Barreiros.

António Duarte (49 anos), Marco Duarte (37 anos), António Clemente Duarte (70 anos) e João Duarte (22 anos)
António Duarte (49 anos), Marco Duarte (37 anos), António Clemente Duarte (70 anos) e João Duarte (22 anos) (Foto: Sílvia Góis)

António Clemente Duarte (70 anos), António Duarte (49 anos), Marco Duarte (37 anos) e João Duarte (22 anos)

4 pessoas, 3 gerações, um avô, dois filhos e um neto. Se alguém nos pode falar do que foi mudando nas “almas” ao longo dos anos são os senhores!

António Clemente Duarte: Sempre existiu aqui uma grande devoção às “almas”. Já o meu pai, que Deus tem, dizia que não precisava de relógio: peço às almas do purgatório e sabia que elas me iam acordar. Era algo muito sentido pedir por todas as almas, pelas almas do purgatório, especialmente pelas que mais precisarem!

António Duarte: Mesmo as nossas nós nunca sabemos onde elas estão..

ACD: Eu sempre me lembro disto, e ainda existem pessoas cá no lugar com 90 anos que já fizeram o peditório.

Como é que se organizavam na sua altura?

ACD: Na minha altura, um rapaz de 16 anos não podia sair de casa à noite! Começávamos quando íamos à inspecção militar. Havia um chefe, que chamávamos de fiel-depositário, que muitas vezes era quem ia casar naquele ano.

AD: Na minha altura, quem organizava era o Albertino Gaspar. Era sempre ele que convidava as pessoas para irem.

Marco Duarte: No meu ano já entrávamos mais cedo. Eram os mais antigos que decidiam quem convidavam.

ACD: Quando éramos muitos, fazíamos 2 grupos, e cada um ia para seu sitio. Fazíamos até à meia-noite! Era o tempo das lavouras, havia sempre movimento na rua, e no final cantávamos sempre a reza junto à capela e levávamos o que tinha sido doado para casa do fiel-depositário. Só era diferente aos domingos.

Também faziam peditório aos domingos?

ACD: Ao domingo era de manhã, logo a seguir ao final da missa das 8:00 até à hora de almoço, corríamos o resto da freguesia, e até íamos para fora! Até a Regueira de Pontes, à Barosa! Vínhamos de lá com 6 ou 7 sacos de milho, a pé ou no guiador da bicicleta. Quando entravamos aqui no lugar, vínhamos em fila indiana a cantar até à capela.

AD: na minha altura já não íamos para fora.

ACD: Nós íamos aos outros sítios, mas os de fora também vinham cá pedir, alguns até a música um pouco diferente da nossa.

AA: O dádiva do dinheiro veio então substituir o milho?

ACD: A maioria das pessoas não davam dinheiro, davam milho, conforme as possibilidades. E mesmo assim, angariávamos muito milho, muito alqueire! E têm de ver que antes, um hectare de terra dava muito menos milho do que dá agora! No final, todo o milho era vendido, e o dinheiro entregue ao Padre para pagar as missas.

Saiam todos os dias, mesmo a chover?

ACD: O trabalho era pesado, mas deixava-se tudo para andar no peditório, e fazíamos por sair sempre, mesmo a chover! No meu tempo, os caminhos eram de areia, cheios de lama. Se não fossemos por estar a chover, era para não se estragar o milho.

João Duarte: Às vezes se chover mesmo muito não vamos, ou tentamos ir até perto de carro.

Falou de entrarem no lugar a cantar, e sabemos que não era a única altura que o faziam…

ACD: A malta gostava de cantar, e sabia-se que se cantássemos à porta das casas, éramos muitas vezes convidados a comer ou beber algo. Os da minha geração ainda sabem como vai a cantiga

AD: Na minha altura, já se cantava pouco, mas fazia-se em certas casas onde éramos melhores recebidos.

MD: No meu ano, às vezes, cantávamos 2 ou 3 versos, mas nunca mais do que isso.

Então as pessoas ouviam-vos cantar, não usavam ainda o búzio e a corneta?

ACD: Nós tínhamos um búzio grande, mas não sei de onde ele apareceu. Sei que já não é o mesmo da minha altura, acho que se partiu. De um ano para o outro, entregava-se a saca e o búzio.

MD: A corneta quem nos deu foi o Aurélio há uns 20 anos.

AD: O som do búzio sempre impôs muito respeito! Naquelas noites frias, escuras, é um choque ouvi-lo.

JD: Quando se é garoto, é inexplicável ouvir aquele som.

Falaram que noutras freguesias também se fazia este peditório. E aqui na freguesia, mais nenhum lugar o organizava?

AD: Em Amor, há uns anos também faziam, mas no tempo do meu pai não. Terá deixado de existir, e voltado por uns tempos.

JD: Mesmo aqui nos Barreiros houve uns quantos interregnos, mas apenas uns 10/15 anos que não houve em quase 100 anos!

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