Passaram-se 50 anos sobre um dos episódios mais marcantes — e ao mesmo tempo mais silenciados — da freguesia de Amor. O dia 27 de julho de 1975, conhecido por quem o viveu como o dia da “Queima das Motas”, continua até hoje envolto num manto de silêncio e desconforto, com poucas vozes disponíveis para relembrar o que se passou.
O Verão Quente de 1975 está hoje nos livros de história como um dos períodos mais conturbados que Portugal viveu após a Revolução dos Cravos. No entanto, enquanto os olhos da comunicação social da época se fixavam em Lisboa, Rio Maior ou nos grandes centros, muitos acontecimentos marcantes ficaram por contar. Em Amor, o que parecia um domingo de sol normal terminou numa cena de caos e violência coletiva. Mas sobre isso, pouco ou nada se escreveu. Foi — e ainda é — um tema tabu.
É difícil contar uma história da qual poucos querem falar. Muitos dos que viveram o momento já não estão entre nós, outros preferem manter o silêncio. Por medo, por vergonha, por receio de reabrir feridas antigas. Os relatos que chegaram até aos dias de hoje são fragmentos: memórias dolorosas, histórias sussurradas, recordações de quem assistiu de perto — mas com distância suficiente para escapar à vergonha ou ao castigo.
Ainda assim, 50 anos depois, importa perguntar: Será tempo de lembrar o que aconteceu e finalmente se falar sobre isto?
O país em erupção
Após o 25 de Abril de 1974, Portugal entrou num período revolucionário acelerado. Com o poder político e militar dividido entre duas grandes correntes — os moderados democratas (PS, PPD, setores do MFA) e os revolucionários de esquerda (parte do PCP, movimentos de extrema-esquerda e parte do MFA) — o país viveu meses de convulsão.
No campo, ocupavam-se terras. Nas cidades, nacionalizavam-se bancos, fábricas e serviços. Nas empresas e nos bairros surgiam Comissões de Trabalhadores e Comités de Vigilância Revolucionária, com o objetivo de transferir o poder para a base.
O clima tornou-se de tensão aberta. A tentativa de golpe de estado de António de Spínola em março falhou e radicalizou ainda mais os processos. Greves, manifestações, confrontos. E, no meio de tudo, uma Igreja Católica profundamente desconfiada das transformações em curso, especialmente nas regiões rurais, onde mantinha forte influência sobre as populações.
No dia 21 de julho de 1975, uma multidão invadiu e destruiu a sede do Partido Comunista Português em Rio Maior. Foi o primeiro de muitos episódios violentos que iriam marcar o verão em várias regiões. Dias depois, o fogo chegaria a Amor.

O Salão, a Igreja e os jovens
Logo após o 25 de Abril, o executivo da Junta de Freguesia de Amor foi dissolvido, dando lugar a uma Comissão Administrativa com representantes de cinco lugares da freguesia: Amor, Barreiros, Casal dos Claros, Casal Novo e Coucinheira.
Ao mesmo tempo, um grupo de jovens — na sua maioria de Amor e do Casal dos Claros — começava a organizar-se, impulsionado por ideias novas e uma vontade genuína de criar algo pela comunidade. Viam no salão paroquial, um espaço construído com o esforço da população, o lugar ideal para esse início. Afinal o salão fora efectivamente construido com doações da população, fossem elas monetárias, de material ou horas de trabalho. Pretendiam ali montar uma biblioteca, promover aulas de literacia para adultos (muitos não sabiam ler nem escrever o suficiente para tirar a carta de condução), criar espaços de encontro.
O problema? O salão, embora construído “pelo povo”, era propriedade da Igreja. E o uso que se lhe dava estava tradicionalmente associado a movimentos religiosos e restrito à esfera paroquial. O então pároco, Padre Manuel Marques, não via com bons olhos a presença dos jovens. Nem ele, nem outras figuras de influência na freguesia, como o Enfermeiro Serra (anterior presidente da Junta de Freguesia) ou o regedor da época.
Antes de ser construido o edificio atual, a antiga construção era mais humilde, com apenas duas salas, que tinham servido durante décadas como Escola Primária, até à inauguração em 1948 da escola atual. Anos mais tarde, tinha sido sede oficial do 1.º clube da freguesia. Oficializado em 1953 com o nome Clube Desportivo Recreativo de Amor, o clube actuava nos campeonatos organizados pela Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), organização do Estado Novo que almejava “criar as infra-estruturas destinadas às actividades culturais, desportivas e recreativas dos trabalhadores e suas famílias, com vista a um maior desenvolvimento físico e moral”.
Esta associação entre aquele edificio e a sede de um clube alimentava na população jovem a naturalidade de aquele ser o ponto de encontro para as primeiras reuniões de jovens “em tempos de liberdade”.
Espontaneamente, começaram a reunir-se no salão, discutindo abertamente as suas ideias.
Uma noite, com apoio de vários paroquianos, o padre expulsou os jovens do salão. Relatos dão conta de que a expulsão foi feita com alguma violência.
A resposta não demorou, e certa manhã, uma das paredes da casa do Sr. Serra aparece com a frase “aqui dão-se injecções de facismo”.
Folhetos são impressos e distribuidos durante a noite, apelando à uma elevação do povo contra o poder da igreja, contra os que “se agarravam ao passado”.
Os jovens não iriam desistir.
A festa do povo
No dia 22 de junho de 1975, organizaram a primeira festa popular sem tutela religiosa, no largo da igreja. Limparam o arraial e as ruas adjacentes, ensaiaram peças de teatro e poemas em casa de Pedro Inês e do seu irmão José Inês, montaram um palco virado para o arraial, colado a uma parede do edifício da Junta de Freguesia – cujas paredes se situavam onde atualmente está o parque de estacionamento da junta – e receberam o apoio da Base Aérea, que cedeu tendas.
Uma peça de teatro escrita por Luis Duarte e Luis Clemente, onde representavam a rúbrica humorística “Sr. Feliz e Sr. Contente”, personagens protagonizadas por Herman José e Nicolau Breyner, brincou com situações especificas da freguesia, para gládio dos presentes. Tal como a declamação de vários poemas, a cantiga de canções como “Somos Livres” de Ermelinda Duarte, ou variadas brincadeiras em palco, naquilo que hoje chamamos de sketchs humoristicos.
A festa foi um sucesso. Um verdadeiro momento de libertação e criatividade. Dela nasceu a ideia de fundar um clube, que ganha realidade no dia 11 de julho — e o nome veio naturalmente: “Centro Recreativo e Cultural 22 de Junho”.
A primeira sede foi instalada num antigo barracão arrendado conhecido como a Empalhação do Custódio, nas traseiras de vários edificios da Rua da Base Aérea, quase paredes meias com a igreja de Amor. Ali reuniam-se, partilhavam ideias, planeavam eventos. Nas primeiras semanas, o número de sócios rapidamente se aproximou da centena. Ali, naquele barracão, também haveriam de resistir — até não poderem mais.
27 de julho de 1975: o dia da infâmia
Era um domingo de sol e calor. Muitas famílias tinham ido à praia ou fazer piqueniques nos pinhais. Pela manhã, a missa dominical encheu a igreja, como era costume, e a seguir, vários homens permaneceram no arraial (na Taberna da Ti Emilia), entre conversa, copos de vinho e jogos de cartas.
Durante a tarde, mais de três dezenas de jovens reuniram-se na sede do clube. Vários tinham chegado de mota, e pelo menos duas dezenas de motorizadas encontravam-se a reluzir ao sol, estacionadas no pátio interior.
Em conversa, surgiu uma ideia: dar um novo nome ao “Largo Padre Margalhau”, visto como uma figura do Estado Novo. Pelo menos dois jovens foram até ao adro da igreja, desaparafuzaram a placa de toponimia que se encontrava junto às escadas de acesso à igreja, viraram-na ao contrário e escreveram “Largo 22 de Junho”, reinstalando-a no mesmo lugar. Era um gesto simbólico — irreverente, sim, mas simbólico.
Foi o estopim.
O gesto foi visto como provocação. Vários homens que estavam na taberna correram atrás dos jovens, que se refugiaram rapidamente na sede do clube.
Afastar os jovens e colocar a placa no seu lado original não parecia ser o suficiente.
As ideias que a juventude tinha eram demasiado diferentes das que comungavam os seus pais. Algures, alguém, desconhecendo-se quem, sugeriu que era a hora de os membros do clube aprenderem uma lição.
Chamaram-se mais braços, mais homens, e colocaram-se a caminho da sede. Alertados, os jovens fecharam o portão à pressa, acabando por o escorar com mesas e bancos. Do lado de fora, o número de pessoas aumentava.
O cerco, a raiva, as chamas
A tensão crescia. Os gritos subiam de tom. Alguém foi aos Barreiros tocar o sino a rebate — e em pouco tempo, gente chegou de todos os lados. Alguns vinham com forquilhas, enxadas, paus, muitos nem sabiam ao certo o que vinham fazer. Outros gritavam abertamente que era hora de “correr com os comunistas”.
Choviam pedras sobre o telhado do barracão. Telhas partiam-se, caíam sobre os que se protegiam no interior. O portão resistia, empurrado de um lado pelos jovens, puxado e forçado do outro por dezenas de braços cheios de raiva.
Com as pedras, caiam tambem os insultos, as ameaças. A razão ficara para trás, o ódio subsitui a raiva, a sanidade parece desaparecer, e as pessoas no exterior deixam de ser pessoas e transformam-se numa turba.
Grita-se “Morte aos Comunistas”, muitos ignorando que no interior do barracão estavam os seus próprios familiares – filhos, sobrinhos…
Numa freguesia onde a educação chegava a poucos, e a informação a poucos mais, os mitos sobre os comunistas “comerem crianças ao pequeno-almoço” ou “darem injeções aos velhos para morrerem” eram tidos como uma verdade quase absoluta.
Os relatos não parecem concordar sobre o tempo que passou, mas nenhum é incorrente quando refere que a população do lado de fora crescera. Alguns mantinham-se ao longe, preocupados com o que viam, outros procuravam familiares. Nem todos os que o faziam vinham à procura de os encontrar bem. Também havia os que procuravam filhos para lhes “meter juizo na cabeça” à maneira antiga: com porrada.
Se a maioria eram da freguesia, muitos de Amor e dos Barreiros, mas também houve pessoas que “vinham das praias” em direção em Leiria, e que acabaram por ficar e se juntar à turba, para correr com os “comunistas”.
O portão acabou por ceder.
Dá-se a fuga em massa. Muitos refugiaram-se no interior do barracão, barrando a entrada. A multidão invadiu o pátio e viu as motorizadas, todas alinhadas, à espera. Não se sabe quem acendeu o fósforo, quem lançou o isqueiro. Mas as motas começaram a arder. Uma a uma, os depósitos a explodir, o fumo a subir.
O fogo torna-se demasiado intenso. Em pânico, temendo morrer queimados, os sitiados fogem pela única escapatória possível: umas janelas traseiras minúsculas. Passaram por quintais, embrenharam-se no pinhal que na época lambia as margens da Rua do Outão, a meros metros. Algumas raparigas, mais corpulentas, escaparam por janelas onde “ninguém acreditava que coubessem”.
As chamas provocaram um curto-circuito na cabine elétrica instalada a poucos metros, e toda a aldeia ficou às escuras.

Quando caiu a noite
A luz voltou a Amor com o cair na noite… apenas na forma dos faróis de um camião militar Berliet, estacionado no arraial. Os militares da Base Aérea nº5 chegaram já depois da violência, mas ainda a tempo de deter alguns responsáveis pela invasão, que foram algemados e sentados na traseira do camião. Sem electricidade para a iluminação pública, numa terra às escuras, apenas aqueles faróis sinalizavam presença humana.
Quem chegava à aldeia via um cenário desolador: sem luz nenhuma, fumo no ar, cheiro a gasolina, cheiro a medo.
De madrugada, algumas motas ainda fumegavam, o metal mostrava-se reluzente e quente, iluminando o espaço, o fumo ainda subia aos céus.
Em surdina, contava-se que “iam morrendo todos”, que as pessoas de fora “queimaram tudo”. Havia quem trouxesse o coração nas mãos por não saber ainda “de tal pessoa”.

O que se seguiu
Nos dias seguintes, as histórias espalharam-se tão rápido quanto o ódio naquela tarde. Famílias dividiram-se. Pais ameaçavam filhos. Irmãos deixaram de se falar. Uns foram acusados de terem estado dentro da sede, outros de terem sido incendiários. A Polícia Militar e a GNR fizeram algumas detenções, mas ninguém foi formalmente acusado. Ninguém foi julgado. Ninguém foi condenado.
Fizeram-se rondas pela freguesia, tentando encontrar responsáveis pelo sucedido.
Alguns eram procurados apenas por se identificarem com partidos de direita, tendo também de fugir, mantendo-se a monte durante alguns dias. Escondem-se em casebres que existiam ou barracos que serviam de apoio a pastores. Mas também alguns jovens associados aos partidos de esquerda temem represálias, e relembram as ameaças que ouviram (e continuam a ouvir). O clima de crispação é tão grande, que alguns fogem para Espanha, para França. Muitos nunca mais voltaram à terra que os viu crescer.
Durante anos, o monte de motas queimadas permaneceu no pátio do clube. Pensou-se em levá-las para a nova sede como memorial. Mas o desejo de esquecer venceu. Por causa disso, vários associados afastaram-se por discordar dessa decisão.
E hoje?
Cinquenta anos depois, o assunto caiu no esquecimento, resumido ao epíteto pelo qual ficou conhecido. Nunca se escreveu uma linha nos jornais da época. Nenhum nome foi inscrito numa ata. Amor esqueceu — ou fingiu esquecer.
Mas os que viveram o dia da Queima das Motas não esquecem. Nem deviam esquecer. Porque aquilo que ardeu não foram só motorizadas. Foram relações, famílias, vizinhanças. Ardeu também a sanidade. E ficou uma ferida — aberta, mesmo que nunca se fale dela.
Será tempo de lembrar o que aconteceu e finalmente se falar sobre isto?


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